Resenha

A Superfície do mundo

agosto 02, 2016


Livro: A Superfície do mundo
Escritora: Sarah Vervloet
Páginas: 103

"O leitor dirá que não é por acaso que tudo isso acontece e que o mês de março é acolhedor de todas as chuvas. Mas fevereiro acalenta o coração, ou pelo menos a esperança, de qualquer pessoa. E, além disso, não há como estabelecer uma comparação entre a angústia sentida de cima do palco e aquela assistida fora dele. A desvantagem é ingrata e não pode ser examinada justamente no momento em que a água fétida entranhava a esculpia toda a imagem espantadora. A vida conglomerada em matéria era pouca, nada mais se fazia dela. Viva-se, inadvertidamente."


A Superfície do mundo, trata-se de um livro de contos, que nos faz viajar até o mundo da escritora, por exemplo:  Parênteses em diário.
Através da escrita, Sarah consegue descrever em palavras o prazer da imaginação. A escrita é encantadora e o leitor consegue viajar em cada conto como se fosse um simples sonho. A leitura é bem fácil e rápida, mas cada conto vale a pena usar a imaginação.
O livro é realmente muito bom e os contos são muito lindos. Recomendo, leiam sem pressa e com a imaginação aberta, para que sintam cada palavra escrita no livro.

Vejam abaixo dois contos do livro:

Nós em risco

A cada frase, prendo todo ar. O ponto final agora é um botão de alarme que permite escapar o ar aliviado. Nunca finaliza. E, assim, cada vírgula torna-se espaço para o engolir seco da saliva que tenta, em vão, desatar o nó da garganta. Mas se pudesse negar algumas verdades sobre a escrita, tudo escrito seria mentira ou exato: um risco. A autenticidade de tais palavras depende de uma leitura pessoal, fazendo desta autoria tanto pó quanto migalha. Impossível escapar.

Sofre o texto, sofre o escritor, pois a letra se faz espinho nas minhas linhas. Fere-me, evita o aparecimento de outras ideias, mas, ao mesmo tempo, libera um pedaço à frente na folha. Linhas espinhentas ou finas como fieira cortante. Fios embolados e nós, sempre nós a complicar a vida. Pois que demora o tempo para desatá-los e, desatando-nos, faltará qualquer coisa ou os fios serão mantidos tensos, nunca mais retilíneos, nunca na mesma linha.

Os espinhos rasgam as linhas que viram círculos e minhas palavras chocam-se de várias maneiras. Ainda, e só assim, respiro ponto a ponto. Então o texto é mesmo um fio frágil, não-retilíneo, mas preponderante. Quanto mais verdadeiro suspeitar, mais em seus traços formam-se símbolos. Ficção é ficção, nada mais. Tudo: ficção e ficção, aquilo que se repete, movimento, até ficar perfeito em linha, em fios, em verdades criadas. Eu, trapezista. O fio, curto e quebradiço, e equilibrar a leitura. Vejo-me riscada. Não, arriscada. Não sei: não escreve.

 
Aguardo leitor

Olho-o de um local segura: daqui posso vê-lo sem perigo de ser reconhecida. Afinal, o que ele espera sentado naquele banco? É uma praça inóspita, vale dizer. Os seus olhos se perdem no livro e vez ou outra achei que olhasse diretamente para mim, com olhos livres, com a mesma intensidade que lê, página por página, história por história. Eu não sou a única personagem daquele livro, essa é a realidade. Imagino-a comigo, solta m ficção, pois há alguma nuance que me obriga a publicar outras páginas. Mas não publicarei até que descubra o sintoma dessa leitura que observo. O leitor se mantém calmo demais? Aflito demais? Não sei definir. A única coisa que descobri é a sua inteira paciência para com um único livro, o meu livro, ou seria melhor, o livro dele?

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